O avô
Dia 4 de setembro já são seis anos sem ele e ainda acho que foi uma grande sacanagem aquele infarto antes da eleição. Quando mais jovem, achava que tinha herdado do Seu Chico Bomfim apenas as pernas tortas, ou arqueadas como minha mãe fala. Mas hoje, quando penso no meu avô paterno, percebo nossas semelhanças. O gosto pela política, nem nego, é igual. Paixão cega, incapaz de disfarçar. Eu vermelha, como ele estava no fim da vida. Disso, lembro com orgulho. Muito lindo ver o dono dos olhos mais azuis do mundo, que sempre votou nos coronéis, seguir a onda vermelha que conduziu o Lula à presidência da República. Esperta, usei esse argumento para conquistar o voto da tia carioca que teimava em votar no Ciro.
Para desespero dos meus pais, o desapego dele também está um pouco em mim. Ai, que dá uma saudade da bagagem desarrumada, das visitas inesperadas e da loucura dele por doce. Seis anos e é saudade boa, coisa leve. Nada de choro porque isso não era dele. Bate arrependimento de não ter visitado com mais freqüência, conversado mais vezes, ter fotos de momentos bobos, como a rapadura cortada por ele ou filmado os resmungos engraçados que ele fazia quando minha avó brigava.
Ele faz falta nas festas, nos almoços de família, no álbuma da Lya... mas o que lamento mesmo é não saber o que ele diria com o troca-troca de candidatos em Crateús, se votaria mesmo no Nenén Coelho, nem se afirmaria também que o José Dirceu é o "Rei do Banditismo", como assegura meu pai, que por sinal está cada vez mais a cópia dele.